segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Leibniz acerca do nexo entre opinião e revolução

Gottfried Wilhelm Leibniz,
por volta do ano de 1700.


Efetivamente, o que mais se tem direito de censurar nos homens não é a sua opinião, mas o seu juízo temerário em censurar a opinião dos outros, como se para ter uma opinião contrária à deles fosse necessário ser estúpido ou mau. Não que muitas vezes não haja verdadeiramente motivo para censurar as opiniões dos outros, porém é necessário fazê-lo com espírito de eqüidade, e ter compreensão pela fraqueza humana. É verdade que temos direito de tomar precauções contra doutrinas más, que exercem influência sobre os costumes e na prática da piedade, porém não se deve atribuí-las às pessoas, em seu prejuízo, sem ter sólidas razões para tanto. Se a eqüidade exige que se poupem as pessoas, a piedade manda mostrar, onde for necessário, o mau efeito dos seus dogmas, quando estes forem prejudiciais, como são aqueles que vão contra a providência de um Deus perfeitamente sábio, bom e justo, e contra esta imortalidade das almas que as torna suscetíveis dos efeitos da sua justiça, sem falar de outras opiniões perigosas para a moral e a ordem pública. Sei que homens excelentes e bem intencionados defendem que essas opiniões teóricas exercem menos influência do que se pensa, na prática, e sei também que existem pessoas de um caráter excelente, as quais nunca farão nada de indigno por causa das opiniões dos outros; aliás, os que chegaram a esses erros pela especulação costumam por natureza distanciar-se mais dos vícios aos quais a maioria dos homens está sujeita, além de terem cuidado para manter a dignidade da seita na qual são como chefes; pode-se, por exemplo, dizer que Epicuro e Spinoza tiveram uma vida inteiramente exemplar. Acontece, porém, que essas razões desaparecem, o mais das vezes, nos seus discípulos ou imitadores, os quais, crendo-se livres do medo importuno de uma Providência vigilante e de um futuro ameaçador, largam as rédeas às suas paixões brutais e voltam o seu espírito a seduzir e a corromper os outros; e, se forem ambiciosos e de caráter um pouco duro, serão capazes, para o seu prazer ou progresso, de pôr fogo nos quatro pontos extremos da terra, como na realidade conheci pessoas deste jaez, que já foram arrebatadas pela morte. Penso igualmente que opiniões parecidas, insinuando-se pouco a pouco no espírito dos homens do grande mundo - os quais governam os outros, e dos quais dependem os acontecimentos - e entrando nos livros que estão na moda, dispõem todas as coisas à revolução geral que no momento ameaça a Europa, e acabam de destruir o que ainda resta no mundo dos sentimentos generosos dos antigos gregos e romanos, que preferiam o amor à pátria e ao bem público, bem como o cuidado da posteridade à fortuna e mesmo à vida. Este public spirit, como o denominam os ingleses, vai diminuindo ao extremo, não estando mais na moda; cessará ainda mais, quando não mais for apoiado pela boa moral e pela verdadeira religião, que a própria razão natural nos ensina. Os melhores da parte oposta, que começa a dominar, não possuem outro princípio fora o que denominam honra. Entretanto, a característica do homem honesto e do homem honrado, para eles, é apenas não fazer qualquer coisa que eles considerem uma baixeza. E se por grandeza, ou por capricho, alguém derramasse um dilúvio de sangue, se ele invertesse tudo, não se daria nenhuma importância a isto, e um Heróstrato dos antigos (que pôs fogo no templo de Éfeso com o único objetivo de imortalizar o seu nome), ou então um Don Juan no Festim de Pedro passaria por um herói. Ridiculariza-se muito o amor à pátria, ridicularizam-se os que têm cuidado do bem público, e, quando algum homem bem intencionado fala do que será a humanidade do futuro, responde-se: que assim seja. Pode, porém, acontecer que essas pessoas mesmas sejam atingidas pelos males que acreditam reservados aos outros. Se ainda nos corrigirmos desta epidemia cujos maus efeitos começam a tornar-se visíveis, talvez esses males sejam prevenidos; ao contrário, se esta epidemia crescer, a Providência corrigirá os homens pela própria revolução que surgirá. Com efeito, aconteça o que acontecer, tudo reverterá, ao final das contas, em bem, embora isso não deva e não possa ocorrer sem a punição daqueles que contribuíram, mesmo que fosse para o bem, com as suas ações más.

In: Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano, Livro Quarto, Capítulo XVI, § 4.


3 comentários:

Inicciatus disse...

Só quem não conhece a filosofia e não entende o pensamento Rosacruz postaria um texto de Leibniz como apoio ao conservadorismo e ao cristianismo. Deveriam ler melhor o que Leibniz diz frente a realidade "não revolucionária" arguida. O contraponto da Teosofia à Teologia pregada pelo cristianismo é brutal.
É triste a confusão do Cristianismo, conservador, absurda e idiotamente dogmático, além de servilista, frente a essência do discurso do Cristo, absolutamente humano, não sectarista e libertário.

Adilson J. da Silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Adilson J. da Silva disse...

Inicciatus, obrigado por comentar. Deves estar confuso: não temos Leibniz como a Luz Eterna para os cristãos. Tampouco temos qualquer relação com as ideias do movimento Rosacruz! Outra coisa: Leibniz não é a causa de sermos conservador e não sustentamos que sua filosofia é o Fundamento do conservadorismo. Você erra tentando argumentar contra o conservadorismo com a mente carregada de pressupostos progressistas: ser conservador não é seguir uma ideologia; a coisa é mais profunda do que pensas. Sobre o cristianismo apenas te digo: deverias ler! Somente por meio do Novo Nascimento em Cristo é que o homem poderá conhecer a Essência de Deus. É por meio da fé em Cristo, a Nova Aliança, que podemos compreender o significado de conservar a Luz cristã em nós e não nos preocuparmos com nenhum paraíso terrestre. Tal sentido é incompreensível para pessoas como você que, infelizmente, não goza do Novo Nascimento. Continues amando teus ídolos e a vida que escolhestes para preencher o vazio de tua alma. Escolhemos amar a Cristo. E se achas o Cristianismo confuso, o fazes por uma decisão tua, uma crença, um dogma que colocastes acima de qualquer iniciativa (mental ou prática) de buscar o conhecimento do que as coisas são. Se te posicionas contra Cristo, o fazes de mão única, sem querer ouvir o diálogo entre o que aprendestes durante tua vida e o que ainda não conheces de Cristo. Pergunto: o que seria do Ocidente não fosse a grande influência da Religião Cristã? Concluo com as palavras do Espírito: "Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda". (livro de Apocalipse).