sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Pascal acerca da fé, da razão e das paixões

Blaise Pascal, 1623-1662.


Infinito nada.


Nossa alma é lançada no corpo onde encontra número, tempo, dimensões; ela raciocina a respeito e chama a isso natureza, necessidade, e não pode acreditar em outra coisa.


A unidade acrescentada ao infinito não o aumenta em nada, não mais do que um pé a uma medida infinita; o finito se aniquila na presença do infinito e se torna um puro nada. Assim o nosso espírito diante de Deus, assim a nossa justiça diante da justiça divina. Não há tão grande desproporção entre a nossa justiça e a de Deus quanto entre a unidade e o infinito.

É preciso que a justiça de Deus seja enorme como a sua misericórdia. Ora, a justiça contra os réprobos é menos enorme e deve chocar menos do que a misericórdia para com os eleitos.

Sabemos que existe um infinito e ignoramos a sua natureza como sabemos que é falso dizer que os números sejam finitos. É verdade então que existe um infinito em número, mas não sabemos o que ele é. É falso que seja par, é falso que seja ímpar, pois acrescentando a unidade ele não muda de natureza. Entretanto é um número, e todo número é par ou ímpar. É verdade que isso se entende de todo número finito.

Assim, pode-se perfeitamente conhecer que há um Deus sem saber o que ele é.

Não há uma verdade substancial, vendo-se tantas coisas verdadeiras que não são a verdade mesma?


Conhecemos, pois, a existência e a natureza do finito porque somos finitos e extensos como ele.

Conhecemos a existência do infinito e ignoramos a sua natureza porque ele tem extensão como nós, mas não tem limites como nós.

Mas não conhecemos nem a existência nem a natureza de Deus porque ele não tem nem extensão nem limites.

Mas, pela fé, conhecemos a sua existência, pela glória, conhecemos a sua natureza.

Ora, já mostrei que se pode perfeitamente conhecer a existência de uma coisa sem conhecer-lhe a natureza. O. Virar.

O. Falemos agora segundo as luzes naturais.

Se há um Deus, ele é infinitamente incompreensível, visto que, não tendo nem partes nem limites, não tem nenhum ponto de relação conosco. Somos, pois, incapazes de conhecer quer aquilo que ele é, quer se ele é. Assim sendo, quem ousará empreender a tarefa de resolver essa questão? não somos nós, que não temos nenhum ponto de relação com ele.

Quem então recriminará os cristãos por não poderem explicar racionalmente a sua crença, eles que professam uma religião que não podem reduzir à razão; eles declaram ao expô-la ao mundo que é uma estultice, stultitiam, e depois vos queixais de que eles não a provam. Se a provassem, não manteriam a palavra. É tendo falta de prova que eles não têm falta de sentido. Sim, mas ainda que isso escuse aqueles que a oferecem assim, e que isso lhes evite a recriminação por a mostrarem sem razão, isso não escusa aqueles que a recebem. Examinemos, pois, esse ponto. E digamos: Deus existe ou não existe; mas para que lado penderemos? a razão nada pode determinar a esse respeito. Existe um caos infinito que nos separa. Joga-se um jogo na extremidade dessa distância infinita, em que dará cara ou coroa. Que aposta fareis? pela razão não podeis fazer nem uma coisa nem outra; pela razão não podeis desfazer nenhuma das duas.

Não recrimineis, então, por falsidade, aqueles que fizeram uma escolha, pois nada sabeis a respeito. Não, mas eu os recriminarei por terem feito não tal escolha, mas uma escolha, pois ainda que aquele que escolhe coroa e o outro estejam em igual erro, eles estão ambos em erro; o certo é não apostar.

Sim, mas é preciso apostar. É inevitável, estais embarcados nessa. Qual dos dois escolhereis então? Vejamos; já que é preciso escolher, vejamos o que vos interessa menos. Tendes duas coisas para perder: a verdade e o bem, e duas coisas a engajar: vossa razão e vossa vontade, vosso conhecimento e vossa ventura, e vossa natureza duas coisas de que fugir: o erro e a miséria. Vossa razão não fica mais ofendida, pois que é preciso necessariamente escolher, escolhendo um ou outro. Aí está um ponto liqüidado. E a vossa ventura? Pesemos o ganho e a perda escolhendo coroa que Deus existe. Avaliemos esses dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo, e se perderdes, não perdeis nada: apostai, pois, que ele existe sem hesitar. Isso é admirável. Sim, é preciso apostar, mas talvez eu esteja apostando demais. Vejamos, pois que há igual possibilidade de ganho e de perda, se só tivésseis a ganhar duas vidas por uma, poderíeis ainda apostar, mas se houvesse três a ganhar?

Seria preciso jogar (pois que estais na necessidade de jogar) e seríeis imprudente, quando sois obrigado a jogar, de não arriscar vossa vida para ganhar três em um jogo em que há igual possibilidade de perda e de ganho. Mas há uma eternidade de vida e de felicidade. E, sendo assim, quando houvesse uma infinidade de possibilidades das quais uma só seria a vosso favor, teríeis ainda razão de apostar um para ter dois; e agireis contra o bom senso, sendo obrigado a jogar, recusando jogar uma vida contra três num jogo em que dentre uma infinidade de possibilidades há uma a vosso favor, se houvesse uma infinidade de vida infinitamente feliz para ganhar: mas há, aqui, uma infinidade de vida infinitamente feliz para ganhar, uma possibilidade de ganho contra um número finito de possibilidades de perda e aquilo que estais jogando é finito. Isso elimina qualquer outra escolha em toda situação em que está o infinito e em que não há uma infinidade de possibilidades de perda contra a de ganho. Não há por que balançar, há que se dar tudo. E assim, quando se é forçado a jogar, é preferível renunciar à razão para conservar a vida a arriscá-la pelo ganho infinito tão prestes a acontecer quanto a perda do nada.

Porque de nada adianta dizer que é incerto que se vai ganhar e que é certo que se arrisca, e que a infinita distância que medeia entre a certeza daquilo que expomos e a incerteza daquilo que se ganhará iguala o bem finito que expomos certamente ao infinito que é incerto. Isso não é assim. Todo jogador arrisca com certeza para ganhar com incerteza e, no entanto, arrisca certamente o finito para ganhar incertamente o finito, sem pecar contra a razão. Não há infinidade de distância entre essa certeza daquilo que se expõe e a incerteza do ganho; isso é falso. Há, na verdade, infinidade entre a certeza de ganhar e a certeza de perder, mas a incerteza de ganhar é proporcional à certeza do que se arrisca segundo a proporção das possibilidades de ganho e de perda. E daí vem que se existem tantas possibilidades de um lado quanto de outro, a partida está para ser jogada de igual para igual. E então a certeza do que se expõe é igual à incerteza do ganho, faltando muito para que esteja infinitamente distante dela. E assim a nossa proposição está numa força infinita, quando há o finito para arriscar, em um jogo em que existem iguais possibilidades de ganho e de perda, e o infinito a ganhar.

Isso é demonstrativo e se os homens são capazes de alguma verdade, essa o é.

Confesso, declaro, mas além disso não há meio de ver o que está por baixo do jogo? sim, as Escrituras e o resto etc. Sim, mas estou com as mãos atadas e a boca emudecida, forçam-me a apostar, e não tenho liberdade, não me soltam e sou feito de tal maneira que não posso acreditar. Que quereis então que eu faça? É verdade, mas ficai sabendo ao menos que a vossa impotência para acreditar vem de vossas paixões. Visto que a razão vos conduz a isso e que mesmo assim não o podeis, trabalhai então não para vos convencer pelo aumento das provas de Deus, mas pela diminuição de vossas paixões. Quereis chegar à fé mas não sabeis o caminho. Quereis sarar da infidelidade e pedis os remédios para isso, aprendei daqueles etc. que estiveram atados como vós e que apostam agora todo o seu bem. São pessoas que conhecem aquele caminho que gostaríeis de seguir e que foram curadas de um mal de que quereis sarar; segui a maneira pela qual eles começaram. Foi fazendo tudo como se acreditassem, tomando água benta, mandando dizer missas etc. Naturalmente mesmo isso vos fará acreditar e vos deixará abestalhado. E é o que eu temo. - Mas por quê? que tendes a perder? mas para mostrar-vos que isso conduz nessa direção, é porque diminui as paixões que são os vossos grandes obstáculos etc.

Fim deste discurso.

Ora, que mal vos ocorrerá se tomar esse partido? Sereis fiel, honesto, humilde, reconhecido, benfazejo, amigo, sincero, verdadeiro... Na verdade não estareis nos prazeres emprestados, na glória, nas delícias, mas não tereis acaso outros?

Digo-vos que já nesta vida ganhareis e que, a cada passo que derdes nesse caminho, vereis tanta certeza de ganho e tanta nulidade daquilo que arriscais, que reconhecereis no fim que apostastes por uma coisa certa, infinita, pela qual nada destes.

Ó, este discurso me transporta, me arrebata etc. Se este discurso vos agrada e vos parece forte, ficai sabendo que ele é feito por um homem que se pôs de joelhos antes e depois, para rogar a esse ser infinito e sem partes, ao qual submete todo o seu, que submeta a si também o vosso para vosso próprio bem e para sua glória; e que assim a força se coadune com a baixeza.


In: Pensamentos. Edição de Louis Lafuma. Tradução de Mario Laranjeira. - São Paulo: Martins Fontes, 2000. (Fragmento 418, na edição de Lafuma; e 233, na de Brunschvicg)

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