segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Platão acerca dos elementos do conhecimento

Para cada ser há três elementos que nos permitem conhecê-lo; o quarto é o próprio conhecimento, vindo a ser o quinto a coisa conhecida e que verdadeiramente existe. O primeiro é o nome; o segundo, a definição; o terceiro, a imagem, e o quarto, o conhecimento. Para melhor compreensão do que acabo de expor, tomai de um exemplo e depois o aplicai aos demais casos. Há o que se chama círculo, cujo nome é precisamente o que acabamos de pronunciar. Vem a seguir a definição, composta de substantivos e verbos: o que tem sempre a mesma distância entre as extremidades e o centro; tal é a definição do que chamamos redondo, circunferência, círculo. Em terceiro lugar, vem a forma que se desenha e apaga, ou que se fabrica no torno e pode ser destruída, enquanto o círculo em si mesmo, a que tudo isso se refere, nada sofre por ser de todo em todo diferente. O quarto é o conhecimento, a inteligência, a opinião verdadeira, relativa a esse mesmo objeto, que devemos englobar numa só classe que não reside nem nos sons proferidos nem nas figuras materiais, porém nas almas, do que se torna manifesto que é de natureza diferente da do círculo em si mesmo e dos três modos indicados. De todos esses elementos, o que mais se aproxima do quinto é a inteligência, por afinidade e semelhança; os demais estão muito afastados.

O mesmo vale para as figuras retilíneas ou as esféricas, as cores, o bem, o belo, o justo, os corpos fabricados pela natureza, o fogo, a água e tudo o mais do mesmo gênero, os seres vivos, as qualidades da alma e também as ações e paixões de toda espécie. Se não apreendermos, de um jeito ou de outro, esses quatro elementos, jamais alcançaremos o conhecimento perfeito do quinto. Acrescentemos que esses elementos pretendem exprimir, com a debilidade irremediável de nossa linguagem, não apenas as qualidades do ser, como também sua essência. Por isso mesmo, nenhuma pessoa de senso confiará seus pensamentos a tal veículo, principalmente se este for fixo, como é o caso dos caracteres escritos.

O exemplo anterior precisará ser bem compreendido. Cada círculo concreto, fabricado no torno ou simplesmente desenhado é cheio de tudo o que contraria o quinto, pois em todas as suas partes ele roça de leve na linha reta; mas o círculo em si mesmo, é o que afirmamos, não contém nem muito nem pouco da natureza contrária à sua. Declaramos, outrossim, que nenhum desses nomes é fixo e que nada impede de darmos o qualificativo de retas às coisas que pretensamente denominamos curvas, ou o de curvas às que chamamos retas, não vindo a ficar, com isso, os nomes menos fixos depois de trocarmos sua aplicação, pois cada um passaria a significar precisamente o seu contrário. O mesmo é válido para a definição, por ser constituída de substantivos e verbos, em que nada há absolutamente firme. Ademais, poder-se-ia provar de mil maneiras diferentes a obscuridade desses quatro elementos; porém, a mais convincente demonstração é a que mencionamos há pouco: como há dois princípios, a essência e a qualidade, o que a alma procura conhecer não é a qualidade, mas a essência. Ora, justamente o que cada um dos quatro elementos apresenta à alma, nos raciocínios e nos fatos, é o que ela não procura, e como tudo o que é expresso ou manifesto é facilmente refutável pelos sentidos, todo o mundo, por assim dizer, se enche de obscuridades e incertezas. Nas coisas em que, de regra, não procuramos a verdade, por motivo de educação viciosa, contentando-nos com a primeira imagem que se apresente, sem, com isso, cairmos no ridículo, ficamos em condições de responder aos que nos interrogam, pelo fato de rejeitarmos e contestarmos esses quatro elementos. Porém, quando, em nossa resposta, somos obrigados a nos referirmos ao quinto elemento, a quem conhecer a  arte de refutar, basta querer para levar a melhor e convencer a maioria dos ouvintes de que quem expõe sua doutrina por meio de discursos, de escritos ou de respostas, nada entende do que se propõe falar ou escrever. Mas, o que eles não sabem é que não é o espírito do escritor ou do orador que se refuta, senão a natureza de cada um dos quatro elementos, essencialmente defeituosa. É à força de considerá-los, subindo e descendo de um para outro, que se gera com muito trabalho no espírito naturalmente capaz, o conhecimento do que por natureza é certo. Mas, se as disposições naturais não forem boas, como é o caso da maioria das almas com o que diz respeito ao conhecimento do que denominamos costumes, ou se estas disposições estiverem corrompidas, gente assim nem o próprio Linceu deixará vendo. Numa palavra: a quem lhe faltar afinidade com o objeto, a esse nada fará ver, nem memória excelente nem facilidade de espírito, pois a visão não se forma em condições desvantajosas. Por isso mesmo, nem os que não têm afinidade nem laços naturais com o justo e tudo quanto é belo, ainda que dotados de boa memória e facilidade de aprender, nem os que possuem essa afinidade porém são remissos para o estudo e de fraca retentiva: nem estes nem aqueles chegarão a aprender sobre a virtude e o vício toda a verdade que é possível conhecer. Porque é de necessidade forçosa aprender os dois ao mesmo tempo, a respeito do ser em universal: o falso e o verdadeiro, o que demanda tempo e trabalho [...]. Só depois de esfregarmos, por assim dizer, uns nos outros, e  compararmos nomes, definições, visões, sensações, e de discuti-los nesses colóquios amistosos em que perguntas e respostas se formulam sem o menor ressaibo de inveja, é que brilham sobre cada objeto a sabedoria e o entendimento, com a tensão máxima de que for capaz a inteligência humana.

Eis a razão de todo homem de senso abster-se de escrever sobre esses temas sérios e de expô-los à inveja e à incompreensão do público. Daí, podermos tirar a seguinte conclusão: quando vemos alguma composição escrita, ou seja de um legislador, a respeito de leis, ou de outro indivíduo sobre assunto diferente, é certeza não ter o autor levado muito a sério o seu trabalho, ainda mesmo que se trate de um sujeito grave, por haver ficado retido o pensamento na porção mais nobre de sua alma. Mas, se, de fato, o confiou à escrita, como coisa da mais alta importância, então, é que os humanos, não os eternos do Olimpo, fizeram com que ele o juízo perdesse.


In: Platão: Diálogos. Volume V (Fedro. Cartas. O Primeiro Alcibíades). Tradução de Carlos Alberto Nunes. Coleção Amazônica. Série Farias Brito. Belém: Universidade Federal do Pará, 1975. (Páginas 156-159)


Original grego (342a 7 - 344d 2), com a possibilidade de fazer a análise morfológica completa, palavra por palavra, bem como a consulta ao tradicional dicionário Liddell-Scott.

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