quarta-feira, 2 de março de 2011

Pascal acerca de como o homem sem a fé não pode conhecer o verdadeiro bem, nem a justiça

Blaise Pascal, 1623-1662. 

Segunda parte . De como o homem sem a fé não pode conhecer o verdadeiro bem, nem a justiça. - Todos os homens buscam ser felizes. Não há exceção, apesar dos diferentes meios que empregam para isso. Todos tendem a esse objetivo. O que faz uns partirem para a guerra, e outros não, é esse mesmo desejo, que está em ambos, acompanhado de diferentes pontos de vista. O menor movimento da vontade sempre se orienta para esse objetivo. É o motivo de todas as ações de todos os homens, até mesmo dos que vão se enforcar.

E, no entanto, depois de um tão grande número de anos, nunca ninguém, sem a fé, chegou a esse ponto visado por todos continuamente. Todos se queixam: príncipes, súditos; nobres, plebeus; velhos, jovens; fortes, fracos; sábios, ignorantes; sãos, doentes; de todos os países, de todas as épocas, de todas as idades e de todas as condições. 

Uma provação tão longa, tão contínua e uniforme, deveria convencer-nos de nossa incapacidade de chegar ao bem por nossos esforços; mas o exemplo pouco nos instrui. Jamais é tão perfeitamente idêntico que não haja alguma leve diferença; e por isso esperamos que nossa expectativa não será frustrada desta vez como foi da outra. E assim, o presente não nos satisfazendo jamais, a experiência nos logra, e de infelicidade em infelicidade nos conduz até a morte, que é o arremate eterno disso.

O que nos grita, então, essa avidez e essa impotência, senão que houve outrora no homem uma verdadeira felicidade, da qual agora lhe resta apenas a marca e o vestígio completamente vazio, que ele tenta inutilmente preencher com tudo que o cerca, buscando nas coisas ausentes o amparo que não obtém das presentes, mas que são incapazes disso porque esse abismo infinito só pode ser preenchido por um objeto infinito e imutável, isto é, pelo próprio Deus?

Só Ele é o verdadeiro bem; e, depois que o homem o abandonou, é estranho que nada exista na natureza capaz de tomar-lhe o lugar: astros, céu, terra, elementos, plantas, couves, alhos, animais, insetos, bezerros, serpentes, febre, peste, guerra, fome, vícios, adultério, incesto. E desde que perdeu o verdadeiro bem, tudo igualmente pode lhe parecer como tal, até sua própria destruição, embora tão contrária a Deus, à razão e à natureza.

Uns o procuram na autoridade, outros nas curiosidades e nas ciências, outros ainda na volúpia. Alguns, que mais se aproximaram dele de fato, consideraram ser necessário que o bem universal, desejado por todos os homens, não esteja em nenhuma das coisas particulares que apenas podem ser possuídas por um só, e que, sendo partilhadas, mais afligem seu possuidor, pela falta da parte que não tem, do que o contentam, por usufruir a que lhe cabe. Eles compreenderam que o verdadeiro bem deveria ser tal que todos pudessem possuí-lo ao mesmo tempo, sem diminuição e sem inveja, e que ninguém pudesse perdê-lo contra a vontade. E sua razão é que, sendo esse desejo natural ao homem, já que se encontra necessariamente em todos, e não havendo como não tê-lo, concluem daí...


In: Pensamentos sobre a Política. Textos escolhidos e apresentados por André Comte-Sponville; Tradução de Paulo Neves. - São Paulo: Martins Fontes, 1994. (p. 8-10, fragmento 13; na edição dos Pensamentos de Lafuma, fragmento 148; na de Brunschvicg, 425; e na de Le Guern, 138)

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