domingo, 13 de março de 2011

Missa Solemnis: h-Moll Messe BWV 232, de Johann Sebastian Bach

Resolvi republicar esta Missa agora que a traduzi com toda a literalidade de que fui capaz. Algumas elipses dificultam a compreensão, mas não a impossibilitam.

Lembrem-se de que esta é apenas a primeira de quatorze partes:





MISSA SOLEMNIS

I. KYRIE

Kyrie eleison.
Senhor, tem piedade.
***

Christe eleison.
Cristo, tem piedade.
***

Kyrie eleison.
Senhor, tem piedade.

II. GLORIA

Gloria in excelsis Deo.
Glória a Deus nas alturas.
***

Et in terra pax
E na terra paz

hominibus bonae voluntatis.
aos homens de boa vontade.
***

Laudamus te. Benedicimus te. Adoramus te. Glorificamus te.
Louvamos-te. Bendizemos-te. Adoramos-te. Glorificamos-te.
***

Gratias agimus tibi
Graças damos a ti

propter magnam gloriam tuam.
pela imensa glória tua.
***

Domine Deus, Rex coelestis,           Domine Fili, unigenite,
Ó Senhor Deus, Rei celestial,          Ó Senhor Filho, unigênito,

Deus Pater omnipotens.                  Jesu Christe altissime.    
Deus Pai todo-poderoso.               Jesus Cristo altíssimo.


Domine Deus, Agnus Dei,
Ó Senhor Deus, ó Cordeiro de Deus,

Filius Patris.
Filho do Pai.
***

Qui tollis peccata mundi,
Que suspendes os pecados do mundo,

miserere nobis.
tem misericórdia de nós.

Qui tollis peccata mundi,
Que suspendes os pecados do mundo,

suscipe deprecationem nostram.
recebe a deprecação nossa.
***

Qui sedes ad dextram Patris,
Que te sentas à direita do Pai,

miserere nobis.
tem misericórdia de nós.
***

Quoniam tu solus Sanctus,
Pois só tu és Santo

Tu solus Dominus,
Só tu és o Senhor,
Tu solus altissimus, Jesu Christe.
Só tu és altíssimo, ó Jesus Cristo.
***

Cum Sancto Spiritu, in gloria Dei Patris.
Junto com o Espírito Santo, na glória de Deus Pai.


Amen.
Amém.
***

III. CREDO (SYMBOLUM NICENUM)

Credo in unum Deum.
Creio em um único Deus.
***

Patrem omnipotentem,
Pai todo-poderoso,

factorem coeli et terrae,
criador de céu e terra,

visibilium omnium et invisibilium.
de todas as coisas visíveis e invisíveis.
***

Et in unum Dominum Jesum Christum.
E num único Senhor, Jesus Cristo.

Filium Dei unigenitum.
Filho unigênito de Deus.

Et ex Patre natum
Nascido do Pai

ante omnia saecula.
antes de todos os séculos.

Deum de Deo, lumen de lumine.
Deus de Deus, luz da luz.

Deum verum de Deo vero,
Deus verdadeiro do Deus verdadeiro,

genitum non factum, consubstantialem Patri,
nascido, não criado, consubstancial com o Pai,

per quem omnia facta sunt.
por quem todas as coisas foram feitas.

Qui propter nos homines
Que por nós, homens,

et propter nostram salutem
e por nossa saúde

descendit de coelis.
desceu dos céus.
***

Et incarnatus est
E fez-se carne

de Spiritu Sancto
do Espírito Santo

ex Maria Virgine.
através de Maria, a Virgem.

Et homo factus est.
E fez-se homem.
***

Crucifixus etiam pro nobis
Crucificado, inclusive, foi, em prol da gente,

sub Pontio Pilato,
sob Pôncio Pilatos,

passus et sepultus est.
padeceu e foi sepultado.
***

Et resurrexit tertia die,
E ressuscitou no terceiro dia,

secundum scripturas.
segundo as escrituras.

Et ascendit in coelum,
E ascendeu ao céu,

sedet ad dexteram Dei Patris.
senta-se à direita de Deus Pai.

Et iterum venturus est cum gloria
E há de vir outra vez com glória

judicare vivos et mortuos,
julgar vivos e mortos,

cuius regni non erit finis.
ele, cujo reino não terá fim.
***

Et in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem,
E no Espírito Santo, Senhor e vivificante,

qui ex Patre Filioque procedit.
que do Pai e do Filho procede.

Qui cum Patre et Filio simul adoratur
Que com Pai e Filho é simultaneamente adorado

et conglorificatur,
e conglorificado,

qui locutus est per Prophetas.
que foi proclamado pelos Profetas.

Et unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam.
E numa única, santa, católica e apostólica Igreja.
***

Confiteor unum baptisma
Confesso um único batismo

in remissionem peccatorum.
em remissão dos pecados.
***

Et expecto resurrectionem mortuorum.
E espero pela ressurreição dos mortos.


Et vitam venturi seculi. Amen.
E pela vida dos séculos vindouros. Amém.
***

IV. SANCTUS

Sanctus, Sanctus, Sanctus,
Santo, Santo, Santo

Dominus Deus Sabaoth.
é o Senhor, Deus dos Exércitos.

Pleni sunt coeli et terra gloria eius.
Plenos estão céus e terra da glória sua.
***

Osanna in excelsis.
Hosana nas alturas.
***

Benedictus qui venit in nomine Domini.
Bendito aquele que vem em nome do Senhor.
***

Osanna in excelsis.
Hosana nas alturas.
***

V. AGNUS DEI

Agnus Dei qui tollis peccata mundi,
Ó Cordeiro de Deus, que suspendes os pecados do mundo,

miserere nobis.
tem misericórdia de nós.
***

Agnus Dei qui tollis peccata mundi,
Ó Cordeiro de Deus, que suspendes os pecados do mundo,

miserere nobis.
tem misericórdia de nós.
***

Dona nobis pacem.
Dá-nos a paz.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Pascal acerca de como o homem sem a fé não pode conhecer o verdadeiro bem, nem a justiça

Blaise Pascal, 1623-1662. 

Segunda parte . De como o homem sem a fé não pode conhecer o verdadeiro bem, nem a justiça. - Todos os homens buscam ser felizes. Não há exceção, apesar dos diferentes meios que empregam para isso. Todos tendem a esse objetivo. O que faz uns partirem para a guerra, e outros não, é esse mesmo desejo, que está em ambos, acompanhado de diferentes pontos de vista. O menor movimento da vontade sempre se orienta para esse objetivo. É o motivo de todas as ações de todos os homens, até mesmo dos que vão se enforcar.

E, no entanto, depois de um tão grande número de anos, nunca ninguém, sem a fé, chegou a esse ponto visado por todos continuamente. Todos se queixam: príncipes, súditos; nobres, plebeus; velhos, jovens; fortes, fracos; sábios, ignorantes; sãos, doentes; de todos os países, de todas as épocas, de todas as idades e de todas as condições. 

Uma provação tão longa, tão contínua e uniforme, deveria convencer-nos de nossa incapacidade de chegar ao bem por nossos esforços; mas o exemplo pouco nos instrui. Jamais é tão perfeitamente idêntico que não haja alguma leve diferença; e por isso esperamos que nossa expectativa não será frustrada desta vez como foi da outra. E assim, o presente não nos satisfazendo jamais, a experiência nos logra, e de infelicidade em infelicidade nos conduz até a morte, que é o arremate eterno disso.

O que nos grita, então, essa avidez e essa impotência, senão que houve outrora no homem uma verdadeira felicidade, da qual agora lhe resta apenas a marca e o vestígio completamente vazio, que ele tenta inutilmente preencher com tudo que o cerca, buscando nas coisas ausentes o amparo que não obtém das presentes, mas que são incapazes disso porque esse abismo infinito só pode ser preenchido por um objeto infinito e imutável, isto é, pelo próprio Deus?

Só Ele é o verdadeiro bem; e, depois que o homem o abandonou, é estranho que nada exista na natureza capaz de tomar-lhe o lugar: astros, céu, terra, elementos, plantas, couves, alhos, animais, insetos, bezerros, serpentes, febre, peste, guerra, fome, vícios, adultério, incesto. E desde que perdeu o verdadeiro bem, tudo igualmente pode lhe parecer como tal, até sua própria destruição, embora tão contrária a Deus, à razão e à natureza.

Uns o procuram na autoridade, outros nas curiosidades e nas ciências, outros ainda na volúpia. Alguns, que mais se aproximaram dele de fato, consideraram ser necessário que o bem universal, desejado por todos os homens, não esteja em nenhuma das coisas particulares que apenas podem ser possuídas por um só, e que, sendo partilhadas, mais afligem seu possuidor, pela falta da parte que não tem, do que o contentam, por usufruir a que lhe cabe. Eles compreenderam que o verdadeiro bem deveria ser tal que todos pudessem possuí-lo ao mesmo tempo, sem diminuição e sem inveja, e que ninguém pudesse perdê-lo contra a vontade. E sua razão é que, sendo esse desejo natural ao homem, já que se encontra necessariamente em todos, e não havendo como não tê-lo, concluem daí...


In: Pensamentos sobre a Política. Textos escolhidos e apresentados por André Comte-Sponville; Tradução de Paulo Neves. - São Paulo: Martins Fontes, 1994. (p. 8-10, fragmento 13; na edição dos Pensamentos de Lafuma, fragmento 148; na de Brunschvicg, 425; e na de Le Guern, 138)