terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A fábula do julgamento da ovelha: um retrato da Comissão da "Verdade"

 
 
         Um cachorro de maus bofes acusou uma pobre ovelhinha de lhe haver furtado um osso.
          Para que furtaria eu esse osso - alegou ela – se sou herbívora e um osso para mim vale tanto quanto um pedaço de pau?
         Não quero saber de nada. Você furtou um osso e vou já levá-la aos tribunais.
          E assim fez.
         Queixou-se ao gavião penacho e pediu-lhe justiça. O gavião reuniu o tribunal para julgar a causa, sorteando para isso doze urubus de papo vazio.
        Comparece a ovelha. Fala. Defende-se de forma cabal, com razões muito irmãs das do cordeirinho que o lobo em tempos comeu. 
         Mas o júri, composto de carnívoros gulosos, não quis saber de nada e deu a sentença:
         Ou entrega o osso já e já, ou condenamos você à morte!
        A ré tremeu: não havia escapatória!...Osso não tinha e não podia, portanto, restituir; mas tinha a vida e ia entregá-la em pagamento do que não furtara.
        Assim aconteceu. O cachorro sangrou-a, espostejou-a, reservou para si um quarto e dividiu o restante com os juízes famintos, a título de custas...
  
Moral: Fiar-se na justiça dos poderosos que tolice!...A justiça deles não vacila em tomar do branco e solenemente decretar que é preto.
 
(Fonte: Fábulas, Monteiro Lobato, 29ª edição - Editora Brasiliense, 1995, São Paulo - SP.)

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