quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Professor & Aluno 2

A Revolução Francesa: perguntas de um petulante aluno ao seu doutrinador e professor de história. (parte 2)

By Adilson J. da Silva

Pedi silêncio e sinalizei para que Tomás apresentasse suas oito indagações, que imediatamente assim catalogou:

Professor, responda-me:
Primeira questão: por que o livro que recebemos do governo não fala sobre o famoso Clube dos Jacobinos, tipo de entidade que reunia tanto jacobinos quanto girondinos? Como o senhor os separa em “direita” e “esquerda” se eles defendiam as mesmas ideias?
Segundo: por que o livro não fala da Constituição Civil do Clero, um tipo de documento em que o Estado Francês praticamente determinava o que a Igreja Católica deveria e não deveria fazer?
Terceira questão: por que o livro não fala que os bens da Igreja Católica foram usados para servir de lastro ao Assignat, papel moeda impresso pelo estado revolucionário francês, uma vez que a França estava empobrecida?
Quarta questão: por que no livro que usamos considera Isaac Newton como iluminista, mas não desconsidera o matemático e filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz, mesmo este tendo desenvolvido o cálculo infinitesimal no mesmo tempo que Newton?
Quinta questão: por que nosso livro não informa que alguns dos ditos iluministas admitiram suas indecorosas atitudes contra a Igreja? Ora, entre esses consta, Voltaire, um dos maiores heróis dos revolucionários de 1789, que próximo à morte, reconheceu seus erros contra a Igreja Católica, e, arrependendo-se, solicitou um padre para a confissão, ao que foi enviado o padre M. Gautier.
Sexta questão: por que os revolucionários que prometiam uma França igualitária e com liberdade para todos, em lugar de cumprir essas promessas, inauguraram um Tribunal Revolucionário para condenar à morte todo e qualquer cidadão que fosse suspeito de discordar deles? Por que a Igualdade, a liberdade e a fraternidade, ideais tão prometidos pelo Estado Revolucionário de 1.789, não contemplavam os católicos como merecedores desses direitos?
Sétima questão: por que o livro não cita o genocídio ocorrido na cidade francesa de Vendeia, entre os anos de 1793 e 1796, em que o estado revolucionário e anticatólico francês, realizou um grande massacre?
Oitava questão: por que, enfim, o senhor afirma que a Revolução de 1.789 foi uma manifestação popular, se a própria Declaração do Direito Civil do Homem e do Cidadão foi um documento escrito totalmente por maçons?

Ao ouvir o catálogo de dúvidas do aluno, confesso que o chão sumiu de meus pés. Senti como se minha cabeça fosse arrancada de meu corpo e todo o meu corpo congelasse. Minha cabeça não parava de girar. Foi como ser atropelado por uma carreta. A vergonha se expressou em meu rosto; senti toda minha face corar. As palavras me fugiram da boca e nada pude responder ao aluno de imediato. Meu cérebro havia sido congelado. E se não fosse pelo tocar da campainha encerrando a aula, creio que minha imagem de bom professor perante o aluno (não da turma) teria ido por água abaixo. Tudo o que pude dizer foi: na próxima aula explico!

Pela noite, já no conforto de minha casa, tentei relembrar todas as oito perguntas apresentadas por Tomás. O resultado não podia ser diferente: descobri que eu era uma fraude intelectual; um farsante sustentado pelo Estado. Pior: um vigarista sustentado pelos impostos de centenas de pais dos alunos que supostamente eu ensinava. E o mais duro para mim foi compreender que minhas acusações contra ricos e políticos pelo mau ensino no país não passavam de uma imensa hipocrisia minha. Reconheci ser um dos culpados pelo fraco ensino a que meus alunos eram submetidos.

No outro dia não voltei à escola, nem nas semanas, meses e anos seguintes. Sinceramente? Eu julgaria a experiência acima infrutífera, não fosse o  fato de eu ter abandonado as salas de aulas. Para sempre? Não sei, mas não antes de aprender História e abandonar minha vida de idiota útil a serviço dos cadáveres  soviéticos e das elites revolucionárias sustentadas com o suor dos milhões de trabalhadores brasileiros.

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