terça-feira, 4 de agosto de 2015

Monteiro Lobato: fábulas II



A cigarra e as formigas - a formiga boa
By Alyson Adrian


Fonte: Fonte: Fábulas, Monteiro Lobato, Editora brasiliense S. A.


 

          Houve uma jovem cigarra que tinha o costume se chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas. Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.

        A pobre cigarra, sem abrigo em seu galahinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se a alguém. Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique...

       Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina

      – Que quer? – perguntou, examinado a triste mendiga suja de lama e a tossir.

        – Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu...

         A formiga olhou-a de alto a baixo.

      – E que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa?

        A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse.

         – Eu cantava, bem sabe...

      – Ah!... exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?

          – Isso mesmo, era eu...

         – Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
A cigarra entrou, sarou de tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.

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