quarta-feira, 6 de abril de 2016

*Lembrai-vos de mim...

"O prazer dos grandes homens consiste em poder tornar os outros felizes". Blaise Pascal


Amigos meus,

Hoje dirijo-vos meus pensamentos. Estou aqui deste lado, sei, onde a eternidade não é tempo, pois começo e fim nela não há. Não há sensibilidade temporal, portanto, não é substanciado. E o amparo e a guarda d'Aquele que tudo vê e tudo sabe são constantes. Se meus dias entre vós findaram-se, aqui, pelo contrário, eles são eternos, garante-me Ele, quem primeiro me amou. Ele que me formou muito antes de meu nascimento, muito antes das minhas mais remotas lembranças. E aqui não há outra coisa senão a contemplação de nós mesmos e da Verdade. Mas acima de tudo, aqui comigo estão os meus feitos, os quais produzi entre vocês, meus bons amigos. Feitos esses que jamais serão apagados dos registros da minha história, da história que construí junto com todos que conheci, com os quais vivi e me aproximei.
Também permanecem em mim os pensamentos daqueles pelos quais a vida dediquei em minhas jornadas diárias. Deles jamais esquecerei, jamais me separarei, jamais os extinguirei de meu ser. A minha história está mesclada a deles, pois a história deles e a minha são partes de uma mesma vida. Recebi do Benfeitor dos homens os dons necessários ao atendimento daqueles que um dia necessitaram de mim: usei-os no limite máximo. A utilidade deles estendi a cada alma sofrida conforme foram minhas forças, conforme foram os dias, conforme foram os fatos, conforme foram as luzes desconhecidas da Providência. Sobre isso minha consciência apazigua o meu coração. E isso me preenche. E essa certeza me enriquece e se faz presente em minha mente por essas plagas onde repouso. Cada plantão cumprido, cada atendimento dado e cada vida amparada foram preciosas pedras produzidas para brilhar durante a leitura de minha vida por aqueles que me conheceram e com os quais compartilhei meu labor.
Por longos e inesquecíveis anos gozei das boas companhias de meus companheiros de uniforme, nos quais respingos de sangue, marcas da lama, grãos de areia e a umidade de chuva, suor e lágrimas sãos as testemunhas mais concretas de que meus dias não foram plenos de egoísmo e, portanto, não foram vazios. Pelo contrário: foram dias enriquecidos pelas belezas que habitavam minha vida humana e os quais ofertei aos meus semelhantes. Lembrai-vos delas meus amigos, lembrai-vos delas! Lembrai-vos para que em vossas lembranças repousem a minha existência tal como foi entre vós. Lembrai-vo, pois elas constituem a materialidade de nossa história que nenhum poder no mundo, ou fora do mundo, jamais poderá apagar. Peço-vos, portanto, que alimentem a história que vivemos. Peço-vos que a mantenha viva em vossas almas, como verdadeiras chamas que ardem e nunca têm fim. Tornem-as presentes a cada dia, desde o amanhecer ao entardecer. E quando a noite chegar, que seus pensamentos sejam como doces vigílias em minha memória. E não temais quando a fadiga do tempo desejar sucumbi-los de tristeza e medo. Antes, porém, olhem para os vossos corações pois é neles que os humanos escondem o melhor da vida que vivem. Lembra-vos de mim.



*Em memórias do Cabo Amadeu, o “Iroman”, cujos anos de serviço no Corpo de Bombeiros (1989-2014) ofertou sua vida em favor do próximo. Seus anos de dedicação e bravura não serão esquecidos entre seus familiares e amigos, especialmente aqueles que acompanharam seu trabalho de perto.

4 comentários:

FireHead disse...

Um verdadeiro soldado da paz, meu caro.

Rafael Freitas disse...

Belo texto meu amigo!

Rafael Freitas disse...

Belo texto meu amigo!

Adilson disse...

É... fiz essa homenagem após ouvir os relatos dos salvamentos de pessoas que ele realizou e das habilidades que possuía. Ele era um servidor público, mas um servidor de baixo escalão. O estado, e os burocratas que administram as honrarias da máquina pública, não perdem tempo com essas pessoas. Portanto, cabe aos que querem fazer algo tomar a decisão.